Árvores [espaço_poesia]


p𝐚𝐬𝐬𝐚𝐝𝐨, 𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐞 𝐟𝐮𝐭𝐮𝐫𝐨 𝐞𝐦 𝟑𝟔𝟔 𝐫𝐞𝐠𝐢𝐬𝐭𝐨𝐬: #62

Designação: Árvores [espaço_poesia]

Freguesia: Pussos São Pedro

Data: 2.Março.2024

Obs.:  Espaço_poesia

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua .

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.

António Gedeão

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